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Terça, 01 Julho 2008 00:00

Mercado de carbono: negócio rentável e eficiente

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A principal causa das mudanças climáticas pelas quais o planeta tem passado é o aumento da concentração de gases que provocam o efeito estufa, capaz de aprisionar o calor na atmosfera. Dentre eles estão o dióxido de carbono (CO2), formado a partir da associação entre o carbono – um dos principais constituintes da vida e um dos dez elementos químicos mais abundantes do universo, presente em todas as substâncias orgânicas – e o oxigênio. Sem o dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa, a Terra seria um planeta congelado.

Contudo, o uso excessivo de combustíveis fósseis e a queima da vegetação, entre outras atividades humanas, têm liberado tanto CO2 no ar que, atualmente, a concentração de dióxido de carbono cresceu 30% se comparada há 150 anos. A grande liberação desse e de outros gases de efeito estufa na atmosfera está elevando a temperatura da Terra, provocando o aquecimento global.

No Brasil, o volume de carbono emitido por indústrias, veículos, usinas de eletricidade e outros cinco setores cresceu mais depressa que a economia entre 1994 e 2005. Enquanto o PIB subiu 2,6% ao ano, em média, o lançamento de gases que favorecem o efeito estufa variou 3,4%, ou seja, o país está poluindo mais do que gerando riquezas. Os dados, de estudo encomendado pelo governo federal à entidade “Economia & Energia”, vão basear o inventário nacional de emissões. Com 91 milhões de toneladas lançadas à atmosfera em 2005, o Brasil ultrapassou tudo o que Áustria e Holanda, somadas, produziram. A entrada de termelétricas a gás e a carvão foi a maior responsável individual pelo resultado. O estudo exclui as emissões oriundas do desmatamento.

Para mitigar o problema, há dez anos foi firmado o Protocolo de Kyoto, um tratado internacional para a redução da emissão dos gases que provocam o efeito estufa e, em conseqüência, o aquecimento global. Por esse documento, os países foram divididos em dois grupos: aqueles que precisam reduzir suas emissões de poluentes e os que não estão obrigados a fazer reduções. Assim, foi proposto um calendário de obrigações para os países mais poluentes, que têm de reduzir a emissão em pelo menos 5,2% em relação aos níveis de 1990, no período entre 2008 e 2012, com o objetivo de diminuir a temperatura global.

Ainda pelo Protocolo de Kyoto, os países signatários devem cooperar para reformar os setores de energia e transportes; promover o uso de fontes energéticas renováveis; eliminar mecanismos financeiros e de mercado inapropriados; limitar as emissões de metano no gerenciamento de resíduos e dos sistemas energéticos, além de proteger florestas e outros sumidouros de carbono.

Como funciona o mercado de carbono

A neutralização de carbono se faz a partir de parâmetros simples, em que se quantificam as emissões de um evento, de uma determinada organização, ou mesmo a partir de um inventário de emissões de carbono. A partir daí, a empresa compensa essas emissões por meio de um programa ou projeto de neutralização, a exemplo de plantio de árvores, da implantação de formas de energias alternativas etc.

Já o mercado de carbono surgiu a partir das novas regras que estabeleceram metas para os países desenvolvidos, com o objetivo de diminuir as emissões totais do planeta. Assim, foram criadas condições para que empresas com dificuldades para atingir o padrão exigido possam comprar esse serviço de outras que conseguiram ir além do esperado. Dessa maneira, na tentativa de atenuar o problema ou lucrar com ele, dependendo da leitura que se faça, passou-se a comercializar créditos ou permissões que limitam a emissão de gases de efeito estufa.

Por meio do Protocolo de Kyoto criou-se o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), pelo qual uma empresa de um país industrializado que não tenha conseguido cumprir suas metas de redução de emissões de gases de carbono possa financiar um projeto que reduza emissões em outro país, fora da área industrializada, descontando essa redução das suas emissões. Nesse aspecto, existem empresas financiando créditos de carbono derivados de aterros sanitários, outras transformando eucalipto em carvão vegetal e substituindo o carvão mineral, que é muito poluente em indústrias siderúrgicas, e assim por diante. Desse modo, empresas que precisam aumentar suas emissões adquirem créditos daquelas que poluem menos. Grosso modo, paga-se para poluir. Portanto, países que têm os recursos naturais preservados são, hoje, sinônimo de dinheiro, e podem investir em projetos de sustentabilidade social e ambiental.

Funciona da seguinte forma: a empresa “A” produz uma tonelada de dióxido de carbono no seu processo de fabricação de cimento, por exemplo, tendo que reduzir em 5% esse total. Mas, para atingir essa meta, ainda faltam 2%. O que ela faz, então? Vai buscar essa diferença no mercado. E é lá que ela encontra a empresa “B”, que montou um parque eólico, que gera energia limpa utilizando a força do vento. A empresa “B” transforma esse serviço em crédito de carbono, calculando o total de gases de efeito estufa que deixaram de ser produzidos, graças à geração de energia limpa. Por fim, ambas fecham o negócio. A empresa “A” compra essa parte em toneladas não emitidas pela empresa “B” e pode, dessa forma, abater sua dívida ambiental. Já a empresa “B” recebe recursos para novos investimentos.

É uma forma de compensação. Assim, as metas podem ser cumpridas e o resultado final – a redução das emissões totais de gases estufa –, atingido. Por essa razão, o crédito de carbono é a nova mercadoria do século 21, uma moeda cada vez mais importante da economia. Países como o Brasil e empresas que não têm metas podem participar desse mercado com projetos que inovem, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa.

Entretanto, essa redução precisa ser validada por uma empresa certificadora e registrada na Organização das Nações Unidas (ONU). O primeiro a obter esse carimbo foi um projeto brasileiro – o Novagerar, na Baixada Fluminense, que substituiu um lixão a céu aberto por um aterro sanitário. Todo o lixo que chega dos caminhões permanece agora confinado e, como um sanduíche, fica protegido por mantas especiais.

Por sua vez, o seqüestro de carbono consiste em capturar o carbono na sua própria origem. Por exemplo, uma empresa que produza energia e que tenha um alto nível de emissão de poluentes seqüestra o carbono no nascedouro, impedindo sua liberação para a atmosfera. Por meio de grandes tubulações, o material é levado para antigos campos de petróleo já esgotados ou para o fundo do mar, evitando-se, assim, que o material vá para a atmosfera.

Implantação conjunta do Protocolo de Kyoto

Trata-se de um mecanismo firmado entre países industrializados. Se um país conseguir reduzir as emissões de gases poluentes além da sua meta, esse percentual a mais poderá ser vendido para outro país industrializado, pelo preço que foi estabelecido entre eles.

Visões distintas

No caso dos créditos de carbono, existem dois pontos de vista. O primeiro condena essa prática, alegando que as empresas, em vez de reduzirem suas emissões, optam por investir em projetos em outros países, mantendo – ou até aumentando – suas emissões. Por sua vez, a segunda vertente defende o procedimento, uma vez que os projetos financiados reduzem a emissão de poluentes, o que é benéfico para a questão das mudanças climáticas.

Em relação ao seqüestro de carbono, o Painel do Clima realizou uma avaliação preliminar divulgando que, tecnicamente, a prática é possível. Mas existem algumas perguntas a serem respondidas pelos especialistas: se, em termos geológicos, a injeção desse carbono sob a terra não irá provocar outros efeitos, como desmoronamentos, fazendo com que o carbono escape para a atmosfera. Além disso, o que pode acontecer com os recursos hídricos subterrâneos? E ainda, quais reflexos serão provocados na biodiversidade marinha? Como se vê, são questões polêmicas, mas que estão formando um mercado importante e cada vez mais lucrativo.

“Na tentativa de atenuar o problema ou lucrar com ele, dependendo da leitura que se faça, passou-se a comercializar créditos ou permissões de carbono, que limitam a emissão de gases de efeito estufa”


Fernando Credidio.
Pós-graduado em Comunicação Social, com ênfase em Marketing e Propaganda, professor, palestrante, ensaísta e consultor em comunicação organizacional para o Terceiro Setor e Sustentabilidade/ Responsabilidade Social Empresarial.

Presidente da organização não governamental Parceiros da Vida, coordena a disciplina Estratégias de Comunicação para o Marketing Cultural e a Cidadania Corporativa, da Faculdade Cásper Líbero