A era do bem - A responsabilidade social privada

Por: Ana Patrícia Arantes
01 Setembro 2002 - 00h00
QUANDO se fala em desigualdade social no Brasil, geralmente, associamos o tema à violência, desnutrição e ao analfabetismo, entre outras notícias não tão boas e que de tão constantes que são, por mais estranho que isso possa parecer, tornam-se sinônimos de normalidade. Afinal, o que isso tem de “novo”?Talvez, o que se tenha de novo seja a mobilização de algumas empresas que passaram a olhar para além dos seus muros, tendo a atitude de transformarem situações que até bem pouco tempo associavam apenas a uma questão governamental. Sem isentar o Estado de suas responsabilidades, mas apenas analisando a situação, podemos reconhecer que o Estado, isoladamente, não dispõe de meios necessários para atender as demandas de populações mais carentes. E, mediante essa fragilidade, ocasionada principalmente pela globalização, que permitiu a abertura da economia, aliada à competitividade, criou-se um sistema econômico e financeiro com capacidade de direcionar os rumos da sociedade, gerando um processo de concentração de renda, levando as empresas a terem cada vez menos mercado.Em busca de soluções, no início da década de 90, empresas brasileiras e multinacionais passaram a desenvolver ações no intuito de complementar as ações governamentais em prol da causa social, aumentando a qualidade de vida, primeiro de seus funcionários, e, conseqüentemente, ampliando suas ações para a comunidade. Dez anos se passaram e o Terceiro Setor no Brasil vem adquirindo suas próprias características, mapeando suas ações e definindo seu futuro.Das 782 mil empresas privadas no País, 59% realizam algum tipo de atendimento social. Em 2000, o montante investido pelas empresas em ações públicas girou em torno de R$ 4,7 bilhões, correspondendo a 0,4% do PIB nacional.Os números brasileiros são expressivos, o que demonstra que o setor privado não está só preocupado em lançar produtos no mercado, mas também em descobrir a necessidade de associá-los a uma causa. Porém, para concretizar essa ação com resultados, a tarefa não é tão simples, pois requer um posicionamento e, conseqüentemente, uma mudança na gestão estratégica da empresa.Inserir a causa social na administração dos negócios não é uma prática comum das empresas brasileiras. Em recente pesquisa divulgada pelo Ipea – Instituto de Pesquisas Aplicadas –, constatou-se que as ações sociais das empresas ainda são, em sua maioria, realizadas por motivos filantrópicos, já que aproximadamente 76% das empresas prestam atendimento de caráter emergencial, realizando suas ações com bases assistencialistas. Aos poucos, contudo, essa atitude vem se transformando.A Fundação Bunge, uma das mais antigas do País, foi criada em 1955 pelo Grupo Bunge e, desde a sua fundação, sempre se preocupou em desenvolver seus projetos pautada em uma estratégia bem definida.Até 1996, atuou somente com o Prêmio Moinho Santista, cujo objetivo é premiar e divulgar obras de intelectuais consagrados e de jovens artistas, vindo a ampliar suas atividades para a Educação Fundamental, área na qual, em parceria com o MEC, premia professores que desenvolvam metodologias inovadoras para a prática do ensino em sala de aula. Até o ano passado, a empresa investia R$ 1,7 milhões em suas ações sociais. Já para este ano o investimento previsto é de R$ 3,7 milhões. “A preocupação do grupo é desenvolver projetos de qualidade, partindo sempre de um histórico. Nosso mais recente trabalho, o Comunidade Educativa – que visa criar ações por intermédio do nosso voluntariado corporativo em parceria com escolas públicas nas regiões de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – advém da experiência que temos com o projeto de Incentivo à Educação Fundamental. Para a sua implantação, realizamos uma consultoria durante dois anos, na qual fizemos o diagnóstico, definimos as pessoas, selecionamos as escolas e, a partir de outubro, daremos início ao projeto”, ressalta Claudia Calais, coordenadora do Programa de Voluntariado, que pretende, a partir desta experiência, estender a iniciativa para outras regiões de atuação da Bunge.Para a coordenadora da pesquisa do Ipea, Anna Maria Peliano, é necessário que as empresas caminhem para uma direção estratégica integrada entre Estado, Mercado e Sociedade, a fim de enfrentarem os problemas sociais com definição clara de responsabilidades e atribuições, ações essas fundamentais para ampliar o alcance e a eficácia do atendimento social no País.E os investimentos? Para aonde estão indo? Segundo a mesma pesquisa, a maioria deles está concentrada na região Sudeste, onde também está o maior número de empresas, porém, a região mais carente de investimentos é o Nordeste, onde constata-se o maior índice de pobreza. Segundo a coordenadora, o direcionamento dos recursos para outras regiões onde as empresas não atuam deverá ser feito por grandes empresas e grandes marcas, pois para as pequenas é mais facilitador atuarem na comunidade.Uma das marcas líderes de mercado, a Coca-Cola, tem sua segunda maior produção aqui no Brasil realizada pela Panamco Brasil, com fábricas na região Sudeste e Centro Oeste, e, apesar de já atuar no setor social há muitos anos, a partir de 1999, criou um sistema de gestão integrada de responsabilidade social.“Antes desse período, a empresa já exercia cidadania corporativa, mas não de uma maneira organizada. Atualmente, temos uma coordenadoria social, e essa política de atuação traz conseqüências positivas, não só para o público externo, mas também para os nossos funcionários, que sentem-se orgulhosos”, declara Karla Camargo, gerente de Relações Externas da Panamco Brasil.Para evitar a pulverização dos recursos e, conseqüentemente, não produzir ações transformadoras, a empresa define a comunidade que irá atuar e procura realizar um trabalho a longo prazo.“Mais do que investimentos, é necessário ter dedicação, pessoas que acompanhem e coordenem os projetos, pois sem esse trabalho não há compromisso. O investimento social é a operação mais rentável que existe. Nós investimos, em 2001, R$ 650 mil, beneficiando 33 mil pessoas. Se calcularmos o custo de cada beneficiário, veremos que é mínimo, porém os resultados são maravilhosos”, conclui Karla Camargo.
Índices
Atualmente, existem índices de verificação de empresas socialmente responsáveis. Um deles é a norma SA8000, que tem como base normas da Organização Internacional do Trabalho, da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Declaração Universal dos Direitos da Criança, e que tem como objetivo comunicar atitudes responsáveis das companhias.“O grande desafio das empresas hoje em dia está em demonstrarem um real comprometimento com acionistas, comunidade, governo e consumidores. Elas devem fazer um diagnóstico, partindo da própria empresa, mostrando como elas vêm lidando com os seus funcionários, o que retiram e o que repõem ao meio ambiente, além de levarem a responsabilidade também para os seus fornecedores, generalizando seu comprometimento, não só o restringindo às leis”, declara o consultor Marco Aurélio Queiroz.Segundo o consultor, pode-se verificar um avanço no comprometimento das empresas com suas causas sociais, algumas já publicam o seu balanço social, e aquelas que ainda não o fazem, devem pensar no assunto. Reduzir as desigualdades sociais é o grande desafio que se apresenta para a sociedade brasileira, formar cidadãos capazes de transformarem o País, participando dos processos de decisão política. Para isso, é fundamental que as empresas definam suas políticas sociais, acompanhem, dêem continuidade e estabeleçam parcerias com instituições não-governamentais, já que elas são especializadas e possuem a experiência de campo.Existem no Brasil aproximadamente 220 mil instituições advindas da sociedade civil, algumas com mais de 50 anos de trabalho, que podem ser instrumentos facilitadores para as companhias que aliam a esta experiência à sua gestão administrativa. O que há alguns anos parecia utópico, hoje acontece e vem se expandindo a cada dia. O Terceiro Setor existe. Sua profissionalização é uma tendência mundial, que o Brasil vem acompanhando de perto. Hoje, o Terceiro Setor já emprega mais de 1,2 milhão de pessoas, mobiliza empresas, voluntários, doadores e beneficiários. E o melhor, todos trabalhando em benefício do bem comum.
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