A ousadia do singelo

Por: Marcelo Estraviz
01 Setembro 2009 - 00h00

Há pouco mais de três anos ocorreu um encontro entre os fundadores da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR). A discussão era se deveríamos continuar ou se o melhor seria fechar a entidade. A energia inicial, lá pelo ano 2000, parecia ter chegado ao fim. A vida profissional de muitos estava bastante mudada e o tempo, por consequência, era escasso. O site nem estava mais no ar e as poucas iniciativas estavam na história e na memória de cada um.

Lembro que olhei ao redor e vi todos com a cara triste. Eu tinha participado ativamente do começo da ABCR. Mais precisamente, dos preparativos, antes mesmo de sua criação. Ocorreram duas situações quase simultâneas que geraram a ABCR:

• Um grupo de brasileiros que foram juntos a um Congresso da Association of Fundraising Professionals (AFP), nos Estados Unidos, voltou animado para criar algo por aqui. Neste grupo estavam Célia Cruz, Custódio Pereira, René Steuer, Renata Brunetti e outros;

• Criei uma lista de discussão entre captadores para que trocássemos experiências ao mesmo tempo em que o debate serviria de referência para um livro que eu e Célia Cruz estávamos escrevendo. Foi nessa lista que se discutiu a criação de um código de ética. Foi esse código o motivador da criação da associação.

Depois de criada, confesso que me distanciei do dia-a-dia da entidade, por razões profissionais. Tivemos duas gestões brilhantemente capitaneadas por Custódio Pereira e Cristina Murachco. Eu torcia à distância, pois estava trabalhando na área governamental.

Quando a Cristina propôs esse encontro pra discutirmos um fechamento, não sei o que deu em mim, mas falei: “Se vocês me apoiarem, candidato-me a presidente para uma terceira gestão”. E avisei logo de cara: “Será uma gestão singela”! Nada de promessas mirabolantes ou grandes planos, faremos as coisas do tamanho de nossas pernas. Tive o apoio de todos e, desde então, são quase três anos desse caminhar singelo, passo a passo.

Em julho de 2009, fizemos nossa maior ousadia: o Festival Latino-Americano de Captação de Recursos. Lembro-me que, assim que cheguei à PUC, no primeiro dia, ao encontrar aquele auditório lotado, fiquei emocionado. Olhava para todo mundo, impressionado. Tinha dado certo. Tínhamos conseguido, de forma singela, humilde, despacito, como dizem nossos irmãos latino-americanos. Éramos uma realidade concreta. Havíamos transformado um desejo de contribuir para a mudança do mundo em uma ação concreta, que se espalhava, agora, por todo o continente, com pessoas fazendo a diferença em suas organizações, apoiando causas, encontrando parceiros.

Preciso contar como se deu essa trajetória. Tenho de detalhar ao menos os envolvidos, se não a história fica incompleta! Quando decidimos arregaçar as mangas, há três anos, não tínhamos site no ar, não tínhamos papéis em ordem, nem contabilidade, nem novos eventos. Começamos pelo site, que hoje é uma referência no setor, enviando boletins semanais para mais de 2,2 mil pessoas. Eu não poderia falar disso sem agradecer a Renata Menegatti, que quase ninguém da diretoria conhece pessoalmente, mas faz do site nosso cartão de visitas, nossa demonstração de estarmos vivos!

Tenho de agradecer ao Pedro Adam, a Renata Brunetti, ao René Steuer e a Vanessa Higa que, junto com outros, citados a seguir, participaram de um primeiro planejamento feito em dois dias de trabalho.

Preciso falar dos eventos singelos que realizamos, principalmente em 2008, quando estávamos testando modelos ao mesmo tempo em que queríamos compartilhar o máximo de informação com todos. Fizemos um encontro brasileiro da ABCR em Salvador, colado no nosso parceiro, o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), no qual pudemos crescer em uma região onde não tínhamos pernas, mas agora temos. E esse evento só aconteceu porque estavam lá Rodrigo Alvarez, Michel Freller, Ana Flavia Sá e João Meirelles. Foi com o João também que pudemos esticar ainda mais a ABCR, até Belém, onde ele atua.

Em São Paulo, fizemos diversos encontros com o Senac, nosso parceiro de primeira hora, graças ao Jorge Duarte e ao Carlos Lopes. Foi lá, junto com Marcio Zeppelini, que testamos nossos primeiros modelos do que chamo evento com “sofá da Hebe”. Trata-se, mais que nada, de informalizar o processo todo. Gerar conversa, ativar participação.

No Rio, nosso mais novo núcleo já se desenvolve com o ferramental do que aprendemos nesses anos. Mas se não fosse Raquel Moreira, não existiria um grupo no Rio. Ela, em suas vindas a São Paulo para aprender e trocar conosco, pôde criar um núcleo audacioso, animado, criativo e que promete muito para os próximos anos.

Se não fosse essa história de quase três anos, não teríamos o festival nesse formato e com esse sucesso. Então, ao ver aquelas 440 pessoas me olhando no palco, percebi a força de atos singelos, mas persistentes.

A angústia das impossibilidades foi substituída pela alegria da abundância. A angústia de algo que estava morrendo transformou-se em felicidade por ver florescimento e vida. No discurso inaugural, comentei que, se éramos singelos nesta gestão, era porque acreditávamos que só assim as coisas se desenvolveriam.

E, se não fosse o Rodrigo Alvarez neste evento, não haveria ousadia! A antropóloga Margaret Mead, a quem admiro muito, tem uma frase: “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas dedicadas é capaz de mudar o mundo: de fato, essas são as únicas pessoas que já conseguiram”. No ato de encerramento, não falei quase nada. Só respondi a algumas queixas – a principal era que algumas pessoas estavam incomodadas pelo fato de haver 12 palestras simultâneas e que, assim, perdiam a chance de assistir a algumas delas. Mesmo ao informarmos que várias seriam reeditadas, optei por fazer uma provocação. Disse a todos os participantes que, nos antigos congressos (tomo a liberdade de chamá-los de antigos, pois já não os considero coisa do presente depois da experiência do festival), a queixa maior era quando havia uma palestra ruim e nada pra fazer. Essa angústia tinha sido substituída, agora, pela sensação de abundância: tenho várias palestras para assistir, a qual vou? No final das contas, sempre teremos angústias, mas estou convencido do que um ex-chefe me dizia há uns 15 anos: “É melhor administrar o excesso do que a escassez.”

Todos foram fundamentais para o sucesso do festival. Foi com essa ideia que chamei os participantes ao palco no último dia. E lá estivemos até que chegasse o último para, só então, aplaudirmos uns aos outros. Todos éramos merecedores do sucesso do evento. Viva nossa angústia! Celebremos nossa singela ousadia. E continuemos na tarefa de mudar o mundo!

Acesse o link para ver o vídeo do Festival no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=K0c4iLKUnbE

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