Brasil setembro de 2059

Por: Felipe Mello, Roberto Ravagnani
01 Setembro 2004 - 00h00
Brasil, setembro de 2059. As principais manchetes dos periódicos tupiniquins concentram suas atenções para o censo demográfico nacional recém-divulgado. Os dados impressionam: a população brasileira é constituída por 9 milhões de habitantes, sendo que apenas 670 mil cidadãos são capazes de se comunicar pela língua portuguesa.Tais afirmações, ainda que evidentemente descabidas, guardam relações diretas com um processo bárbaro da recente história de vida deste país. A população indígena do Brasil despencou, em 504 anos, de cerca de 10 milhões para 550 mil pessoas. E destas, apenas 40 mil dominam uma das 180 línguas pertencentes a seus povos. Lembrando que, logo após a chegada de Cabral e sua trupe à terra brasilis, os milhões de habitantes locais dominavam 1.200 línguas diferentes.Certamente, um cacique que tivesse acesso à engenhoca de Steven Spielberg e viajasse no tempo, saindo do ano de 1500 para 2004, se depararia com uma manchete trágica em relação ao desenvolvimento, ou melhor, o desaparecimento quase completo de seu povo. O mais preocupante: não teria a posterior correção, uma vez que não se trataria de futurologia macabra. Ainda, voltaria às dependências de sua oca com um profundo sentimento de desânimo, depois de verificar que o grande algoz de sua gente ainda vivia, firme e forte: a indiferença. A proposta é exatamente a reflexão, uma vez que soa desastroso pensar a pátria brasileira pós-colonização reduzida ao tamanho do município de São Paulo (em termos populacionais).No caso de nossos irmãos de terra, os índios, a violência não ficou apenas no âmbito físico, tendo deixado cicatrizes profundas e feridas ainda expostas na cultura de seus povos. A história conta que os portugueses, a serviço da corte, ao chegarem a esta terra, ignoraram solenemente as instituições educativas dos indígenas, com o objetivo de desarticular a identidade das etnias. A explicação: os lusitanos consideravam "universais" as instituições e os fundamentos filosóficos do sistema educacional europeu. Assim, os saberes indígenas ficaram excluídos da sala de aula. A função da escola era fazer com que aqueles estudantes novos desaprendessem o que tinham de bagagem, sendo, inclusive, proibidos de se comunicar em suas línguas, obrigados a aprender o português e introduzidos ao aprendizado de uma série de ofícios.Thydêwá quer pazEntretanto, viajar pelo passado torna-se improdutivo se o passeio não proporcionar conhecimento e mudanças no presente. Vale apresentar uma organização social baiana que vem implementando e gerenciando projetos sociais para o resgate, preservação, defesa e valorização da cultura indígena.O ONG Thydêwá atua em diversos municípios da região sul da Bahia, tendo lançado em agosto deste ano um projeto chamado Índio Quer Paz, que tem a proposta de transformar a realidade por meio da melhoria da relação entre as comunidades indígenas e os "brancos". "Buscamos o respeito mútuo à cultura e à educação", completa Ricardo Sousa, diretor executivo da organização.Contando com o apoio institucional da Unesco e o patrocínio da Brazil Foundation, a organização tem como estratégia inicial para esse projeto um trabalho de fortalecimento da união entre os pataxós, que são divididos em seis etnias e somam 2.500 pessoas. Nos 12 meses de duração do projeto, ainda serão realizadas atividades que fomentem a integração entre os elementos da comunidade, colocando lado a lado moradores e índios.Em busca de uma relação mais próxima e produtiva com o poder público, o projeto investirá na sensibilização de autoridades locais, assim como o intercâmbio cultural terá cadeira cativa no transcorrer dos trabalhos, com a realização de eventos culturais e visitas trocadas, ou seja, não-índios conhecendo as aldeias e os índios visitando teatros e museus. "A idéia é que todos sigam de mãos dadas, porque não são somente os índios que serão beneficiados, mas toda a sociedade. Até porque os riscos existentes hoje afetam a todos", afirma Ricardo.O projeto Índio Quer Paz é fruto de uma campanha chamada Índio Quer Respeito, que teve a organização a cargo da Thydêwá e a realização dos tupinambás. Durante uma semana, em março de 2003, a cidade de Ilhéus (BA) foi cenário de dinâmicas de conscientização, com os índios, sobre direitos humanos, além de palestras sobre relações de paz na retomada da terra e também a importância do respeito e tolerância às diferenças culturais. Durante a campanha, uma série de escolas da região foram visitadas, abrindo oportunidade para que os índios se aproximassem dos alunos e apresentassem seus cantos e danças sagradas. Ricardo Sousa informa que aproximadamente 20 mil alunos foram atingidos pela iniciativa. "Foi uma possibilidade de acesso a informações importantes, uma vez que muitos alunos ainda ignoravam a existência de aldeias localizadas nas adjacências de sua própria cidade". Ponto para a cidadania inclusiva, pois a consciência promove a reflexão sobre a indiferença e suas conseqüências, sendo este o caminho mais inteligente para a mudança de atitudes e posturas.Em busca da preservação da cultura indígenaAlém da busca pelo binômio "respeito-paz", a ONG Thydêwá também está atuante para garantir a preservação da cultura indígena e a convivência pacífica com a população local. Um exemplo é o projeto Índio na Visão dos Índios, que apresenta sete livros, resultado do trabalho dos próprios índios, que deixam claro que podem e querem contar a própria história. Já o projeto Irmãos em um Mundo trabalha com recursos audiovisuais para mostrar documentários sobre o intercâmbio entre membros de duas comunidades, sempre partindo da observação dos próprios índios.E para aqueles que acreditam que índio somente quer apito e espelhinho, o projeto Índio On-line dá o recado. Desde 2001, mais de sete comunidades dos Estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, contando com aproximadamente 4 mil índios cada, estão conectadas à internet. Isso permitiu a formação de grupos de estudo e trabalho, visando a melhoria das condições de existência, com atenção à educação, saúde e alimentação.Não se trata apenas de elaborar diretrizes políticas e impô-las pelas leis, até porque muitas delas existem e não são ampla e irrestritamente obedecidas. É preciso aproveitar as informações e acelerar o passo no processo de valorização da cultura indígena, elo indispensável desta terra com a sua história.Escolas indígenas e educação diferenciadaSegundo o Censo Escolar 2003, do Ministério da Educação, são 147 mil estudantes em 2.079 escolas indígenas. Trata-se de um número considerável, quando observada a população total, mas muito mais ainda está por ser feito, a fim de que a política de educação indígena promulgada na Constituição Federal de 1988 seja respeitada. Vale lembrar que passou a ser dever do Estado o oferecimento de uma educação escolar bilíngüe e intercultural, para fortalecimento das práticas socioculturais e a língua materna de cada comunidade. Além disso, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei 9.394) e o Plano Nacional de Educação (lei 10.172) reforçam a questão da necessidade da educação diferenciada, com a valorização dos conhecimentos desses povos.O Terceiro Setor tem um importante papel a cumprir nessa seara. São ações como as empreendidas pela ONG Thydêwá que demonstram, na prática, a possibilidade do fazer acontecer, deixando sem argumentos aqueles que não têm vontade política para equilibrar as relações entre brancos e comunidades indígenas. Não se trata de paternalismo ou mea culpa simplesmente, mas sim de uma política indiscriminadamente inclusiva e justa, que batalhe incessantemente pelo equilíbrio social e promoção do desenvolvimento do ser humano.A organização tem como estratégia inicial para esse projeto um trabalho de fortalecimento da união entre os pataxós-
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