Comunicação celular

Por: Felipe Mello, Roberto Ravagnani
01 Julho 2009 - 00h00

Em 1995, quando cheguei à capital de São Paulo, meus pais compraram uma linha telefônica da Telesp. Valor de investimento: R$ 4,5 mil. A telefonia móvel celular em São Paulo tinha sido inaugurada em 1993, mantendo-se por muitos anos como artigo de luxo. A imensa maioria dos brasileiros tinha mesmo de pagar caro para ter um telefone.

Nos dias de hoje, em vez de uma linha fixa, eu e meus familiares compraríamos um chip pré-pago de celular de uma mesma operadora, falando praticamente de graça entre nós. O tempo passou e veio a privatização das telecomunicações, fazendo o valor do ativo “linha telefônica” despencar mais que a máscara de alguns senadores recentemente, confessos surpresos por receberem auxílio-moradia mesmo sem terem tal direito.

Em termos de retorno financeiro, talvez tenha sido um dos piores investimentos que os meus pais tenham feito. Em termos de retorno para o país, alguns representantes públicos também apontam péssimo retorno. No final de 2008, o número de linhas de celulares atingiu 121 milhões de unidades, atendendo a quase 64% da população. Muita gente habilitada para se comunicar.
Fim das referências pragmáticas. Vamos para o campo do comportamento, onde moram as relações humanas.

Há alguns dias vivi mais uma história marcante em uma visita hospitalar. De um lado, uma paciente na faixa dos 60 anos. Do outro, o personagem palhaço que interpreto nas visitas hospitalares, Dr. Raviolli Bem-te-Vi(1). Entre eles, como instrumento protagonista, um telefone celular. Ao cruzar um corredor da unidade de saúde, fui chamado por uma paciente. Ela estava aflita. Queria expressar uma necessidade premente: o desejo de se comunicar com a sua mãe; há dias não enviava notícias sobre a sua saúde e tampouco recebia novidades sobre a saúde materna. Perguntei como poderia ajudar. Ela me respondeu que se eu tivesse um aparelho celular de uma determinada operadora, poderíamos fazer uma ligação gratuita para a casa onde estava hospedada a citada mãe.
O meu celular não era da referida operadora, mas eu menti. A causa me pediu.

Antes do desfecho, uma digressão: as atuais operadoras de telefonia têm nomes absurdamente singelos e curiosos. A primeira empresa brasileira no segmento foi a Brazilian Telephone Co. que, depois de passar por diversos proprietários, foi incorporada, no ano da proclamação da República, à Brasilianische Elektricitats Geselschaft, com sede em Berlim.

A comunicação humana está cada dia mais simplória, menos pelos nomes que levam as empresas, mais pelo valor dado ao verdadeiro ato de se comunicar.

Pedi à paciente que me dissesse o número. Disquei. Quando alguém atendeu, passei o aparelho à ansiosa filha. Após um rápido cumprimento, percebi que a mãe estava do outro lado da linha. A voz da paciente ficou embargada. Os olhos marejaram.

- Mãe, sua bênção. A senhora está bem? Eu estou melhor, rezo pela senhora todos os dias. Quando eu sair vou direto buscá-la. Te amo, minha linda. Fica com Deus.

A conversa foi rápida. Tempo suficiente para acalmar o peito daquelas duas mulheres, separadas por uma distância que ainda não consegui determinar – e, talvez nunca consiga. A paciente era portadora de HIV. Seus filhos não a acompanham durante as sucessivas internações, por desaprovarem o comportamento que a levou à doença. Na solidão que pode existir no ato de ser mãe, aquela mulher buscou abrigo no ato de ser filha.

Poucas vezes na vida o meu aparelho celular foi tão útil. Naquele quarto de hospital público, o objeto estabeleceu real contato celular, unindo por micro-ondas e pelo afeto células de mesma origem.

Na exposição do Centenário da Independência dos Estados Unidos ocorrida em 25 de junho de 1876, Graham Bell demonstrou, pela primeira vez em público, que seu invento falava. E foi o imperador D. Pedro II quem inaugurou o telefone. A uma distância de 150 metros, ele pôde ouvir Graham Bell declamar o famoso verso de Shakespeare: “To be or not to be...” (“Ser ou não ser...”, em português). Com o fone no ouvido, exclamou maravilhado: “My God, it talks!” (“Meu Deus, isso fala!”).

Talvez se hoje vivessem, o cientista e o monarca humanista dessem outro sentido às suas frases: ser ou não ser humano? Meu Deus, eles falam, mas não se entendem! Tecnologia é meio, não fim.

Qualquer apetrecho material, inclusive dinheiro, é meio, não fim. Coisas que são coisas são fundamentais, mas não chegam nem à porta da morada do que é essencial.

 

1) Dr. Raviolli Bem-te-Vi é um dos mais de mil voluntários do programa social Doutores Cidadãos, criado e coordenado pela ONG Canto Cidadão.

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