Mitos e verdades sobre a adoção tardia

Por: Revista Filantropia
01 Julho 2003 - 00h00
Asociedade vê a criança ainda como uma posse que está, de certa forma, sob o controle do adulto que decide como, quando e de que forma deve amá-la e formá-la. Uma criança de mais de três anos, tendo vivido uma experiência marcante de internamento institucional, violência ou abandono traz uma história difícil de ser controlada. Esse tipo de preconceito é fruto de uma sociedade profundamente segmentada, com alta concentração de renda e que ainda não desenvolveu uma solidariedade fundamental de pessoa a pessoa.

As crianças mais procuradas para adoção são as recém-nascidas, brancas (de preferência loiras) e meninas. São as crianças “ideais”, os fantasmas dos desejos de uma sociedade moldada pela propaganda e por valores estéticos europeus. Acredita-se que uma menina será mais dócil, mais meiga e amiga e que essa criança encantada, dotada de todas as qualidades e valores (porque também é saudável e nunca viu ou foi tocada pela mãe biológica, da qual é resgatada miraculosamente). Nesse ínterim, as crianças mais velhas perdem espaço.

É preciso dividir essa “criança maior de três anos” em quatro grupos: dos 2 aos 6 anos, dos 7 aos 10 anos, dos 11 aos 14 anos e dos 14 aos 18 anos. Cada um desses grupos tem suas próprias especificidades e desafios.

O primeiro grupo é o de crianças pe­quenas e, se a dor delas é excruciante pois são completamente indefesas diante da maldade, sua capacidade e prontidão para receber amor é imensa, podendo se adaptar com bastante facilidade, uma vez enfrentadas as sombras e feridas.

O segundo grupo é o de crianças que já construíram e, às vezes, já desconstruiram a esperança. Estão na fase de encontrar o esboço de suas identidades e as vicissitudes de uma vida amarga tornam isso muito difícil. Sua adaptação depende não só de muito amor, mas de muita disponibilidade para enfrentar a revolta e refazer caminhos que se perderam ou foram truncados.

O terceiro grupo é dos que têm até sonhos, mas não têm mais esperanças e suas fantasias são fora da realidade, pois ela não é lúcida o suficiente. Se estão na rua, já foram capturados pela prostituição e pelo delito; se estão num orfanato, multiplicaram a primeira e original rejeição pelas dezenas de vezes que viram outras crianças menores, mais brancas ou meninas, serem levadas por uma família e eles não. Essa rejeição cotidiana é uma farpa de sofrimento que condiciona sua auto-imagem e deforma o mapeamento de sua existência. Sua adaptação numa família adotiva depende de amor, de um profundo senso de responsabilidade dos pais e de lucidez capaz de compreender os problemas e demandas dessa criança, quase adolescente, de forma a fazê-las elaborar e superar o passado para se tornar um adulto feliz.

O quarto grupo já é formado por ado­lescentes e é marcado pelas dificuldades de uma infância abandonada e pelas ambi­güidades desta. Nos dois últimos grupos, o acompanhamento especializado de assistentes sociais e psicólogos antes, durante e, prin­cipalmente, depois de concretizado o ato da adoção, é de extrema importância.

O processo de adaptação

A bibliografia estabelece, em média, dois anos para que a criança supere o medo de ser rejeitada novamente e se permita confiar e estabelecer relações de afetividade com os pais. É claro que essa média depende de cada caso e de cada criança, mas alguns fatores são determinantes:

  • real compromisso amoroso dos pais em relação à criança (diferente do amor romântico que, muitas vezes, se despedaça diante da realidade de uma criança que guarda demônios dentro de si, que afloram durante o período de adaptação);
  • serenidade e equilíbrio dos novos pais para não exigir de si e da criança mais do que cada um pode dar e ser;
  • presença de um grupo familiar, de amigos e de referências sociais coerentes e cúmplices;
  • não ter medo de buscar a ajuda pro­fissional de um psicólogo e/ou o amparo dos grupos de apoio da região.

Esse período de adaptação da criança apresenta características específicas em determinadas fases. Levando em conta a especificidade de cada situação, poderíamos assinalar as seguintes fases:

  • o encantamento: a criança está feliz de ser escolhida e sair da rua ou do orfanato e os pais estão apaixonados pela criança e pelo gesto de acolhimento.
  • a raiva e a decepção: assinalado pela necessidade de “marcar território”, nesse período a criança exercita um direito que nunca lhe fora dado - o de dizer não - é uma tentativa simbólica de controlar e refazer a sua vida.
  • o encontro da família: quando a criança entende que encontrou uma família – pai e mãe – e se dispõe a refazer pedaços de vida, é a fase em que a criança apresenta problemas de aprendizagem, volta a fazer xixi na cama, exige atenções de um bebê, podendo querer mamadeira ou pedindo afagos e colos de uma criança pequenina.
  • o “insight” amoroso: a criança percebe que, apesar de tudo, aqueles são seus pais, eventualmente não perfeitos nem ideais, mas verdadeiros e presentes e os mesmos percebem que aquela criança que está com eles vai crescer, vai viver e se tornar um adulto.

Muitas vezes, existe um quinto momento, quando, na adolescência, a criança busca conhecer os pais biológicos. É um momento muito tenso e que só pode ser enfrentado com muita ajuda, calma, firmeza e generosidade. Normalmente o adolescente só quer estabelecer seus parâmetros de vida e, quando a relação parental é sadia, não significa que está rejeitando os pais adotivos, apenas procura contar, para si mesmo, sua própria história.

Uma das dificuldades mais freqüentes observadas no relacionamento pais-filhos adotivos tardios é a decepção de ambos. Os filhos adotivos idealizam demasiadamente a vida familiar, realmente não sabem o que é uma família com sua rede de direitos e deveres. O que eles chamam de "querer uma família" é, na verdade, querer sair da rua ou da instituição e poder ter tudo o que eles sonham. Eles tendem a se sentir traídos ao descobrir que a vida familiar tem regras e limites.

Quando o adotado é adolescente ou quase, um dos fatores mais complicados é que ele não teve tempo de decidir se realmente quer amar os pais que o adotaram. A natural rebeldia adolescente, no caso, pode se revelar numa negação furiosa desses adultos que o adotaram e que querem ter algum direito sobre ele. Os pais, por sua vez, se decepcionam quando a criança maior, “que já deveria entender as coisas”, reage de uma forma agressiva, se nega a fazer parte da família que o acolheu ou apresenta comportamentos regressivos ou mimados, querendo tudo e se negando a dar qualquer coisa.

Se esses confrontos não forem apazi­guados a adoção tardia pode acabar em devolução, o que fere a ambos mas, principalmente, à criança de um modo implacável. É preciso que os pais se lembrem que a criança ou o adolescente estão testando essa nova relação com as armas que lhe foram dadas: o medo, a raiva, a desconfiança. Uma criança mais velha aprendeu a não amar, pois todos a quem se ligou afetivamente foram embora - os pais, os funcionários, os colegas de quarto ou de marquise. Paciência e firmeza são as qualidades necessárias para prosseguir o resgate. Aos poucos, a criança percebe que o amor é uma dádiva e não ameaça. Então, ela se permite voltar a ter fantasias, sonhos e esperanças. A tempestade aconteceu, os danos foram reais, mas no porto seguro é possível fazer os reparos necessários, juntos, pais e filhos, e seguir juntos na viagem que é a vida.

Fonte: Projeto Viva um Sonho

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