Aron Belinky

Por: Thaís Iannarelli
01 Março 2010 - 00h00

Consolidar uma linguagem comum e estabalecer diretrizes amplamente aceitas sobre responsabilidade social é o principal objetivo da ISO 26.000, que será publicada pela ISO (Organização Internacional para Normalização) até dezembro deste ano. Aron Belinky, pesquisador e consultor, especialista em responsabilidade social, sustentabilidade e consumo sustentável, como membro do comitê nacional formado na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) é um dos brasileiros que participam da construção dessa nova norma.

Além de ser responsável pelo Grupo de Articulação das ONGs Brasileiras na ISO 26.000 (GAO), é também secretário executivo da Ecopress, primeira agência brasileira de notícias ambientais. Tem formação em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2009 foi o coordenador nacional da campanha global de ações pelo clima no Brasil (campanha TicTacTicTac). Desde 2006, é um dos responsáveis pelo Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE/Bovespa) e, desde 2003, é consultor de pesquisas e métricas do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.

Para a Revista Filantropia, Aron fala sobre a nova norma de responsabilidade social e como foi seu processo de criação

Revista Filantropia: No que consiste exatamente a ISO 26.000?

Aron Belinky: A nova normalização ligada à área de responsabilidade social, que inclui também as dimensões ambientais, econômicas e culturais, é uma espécie de “ponte” entre os grandes acordos internacionais relacionados à sustentabilidade e à justiça social (como a Agenda 21 e da Declaração Universal dos Direitos Humanos) e o dia-a-dia das organizações. Ela seleciona as expectativas contidas nesses acordos e as traduz em linguagem gerencial acessível. Com isso, terá um grande potencial transformador, com a capacidade de motivar e orientar mudanças na maneira como as empresas e quaisquer outras organizações atuam nas questões de responsabilidade social e sustentabilidade. Ela se baseia em quatro pilares. Primeiro, na transparência; segundo, no engajamento dos stakeholders, ou seja, na identificação e diálogo com aqueles cujos legítimos interesses são afetados pelas decisões da organização; o terceiro é a definição do conjunto de temas que devem ser considerados. Ou seja, a empresa ou organização que se diz socialmente responsável não pode limitar-se a um só assunto, por exemplo, de meio ambiente, e ignorando todo o resto. É o conjunto que deve ser considerado. Não que você vá conseguir fazer tudo ao mesmo tempo, mas é preciso estabalecer prioridades coerentes. O quarto pilar é que não se pode agir como se a responsabilidade social começasse e terminasse dentro da própria organização. Os impactos de nossas ações devem ser considerados tendo em conta uma história que vem antes e outra que virá depois.

RF: E como é o processo do seu desenvolvimento?

AB: A produção da norma ISO 26.000 é um processo internacional. A ISO, sendo ela própria um tipo de ONG, uma associação, formou em 2005 um grupo de trabalho (GT) em que cada país tem um comitê de representantes, vindos de seis diferentes setores da sociedade: empresas, governo, trabalhadores, consumidores, ONGs e “outros”, incluindo as áreas de ensino, pesquisa e consultoria. O GT funciona com reuniões periódicas e, entre elas, por meio da internet. A próxima será em Copenhagen, em maio de 2010. O GT se organiza de maneira muito dinâmica e flexível. Além dos representantes dos seis tipos de stakeholders, há um grupo de coordenação geral, e grupos com diferentes responsabilidades, como comunicação e captação de recursos. Isso além da equipe do conteúdo, e de um grupo técnico responsável pela efetiva redação da norma. O Brasil está muito presente no processo global, e ocupa posições importantes no GT.

RF: Com que embasamento foram criados os preceitos contidos na ISO para “qualificar” a responsabilidade social das empresas?

AB: Como mencionei, historicamente, por meio dos grandes acordos internacionais, a humanidade já determinou o que achamos certo. Então, achamos os direitos humanos uma coisa certa, por exemplo. O GT que produz a ISO 26.000 percebeu inteligentemente que não é ele que vai decidir o que é bom para a humanidade. Na verdade, ele precisa entender o que está escrito nessas declarações universais e filtrar aquilo que se aplica no cotidiano das empresas, trazendo isso para uma orientação de gestão. A ISO 26.000 compõe um conjunto de diretrizes de gestão.

RF: Qual é a participação das ONGs no processo de criação da ISO 26.000?

AB: Já em 2006 criamos o GAO, um fórum informal, aberto e claramente estruturado, para que as ONGs pudessem se informar e participar, já que se procurava a participação de diferentes segmentos da sociedade. Desde então, procuramos produzir informações por meio do site e boletins que publicamos, com o objetivo de se ter uma noção da expectativa das ONGs em relação à responsabilidade social. Basicamente, percebemos que é a ideia do compromisso ético com o meio ambiente e com a sociedade. Esse fórum nos deixou muito felizes, porque hoje tem uma boa quantidade de pessoas do Terceiro Setor que sabe do que estamos falando, podem participar e ajudar a multiplicar. Isso é uma boa conquista. Ao mesmo tempo, sentimos uma dificuldade de conversar com as ONGs, porque algumas ainda acham que essa normalização é coisa para empresas, e não para elas. Já ouvi de muitos representantes de entidades coisas do tipo: “sou uma ONG, tenho poucos recursos, muitas demandas, não posso usar meu tempo para isso”. Isso é compreensível, mas também se entende que a ISO 26.000 é uma ferramenta que pode ajudar.

RF: Quais são as principais mudanças que devem acontecer no comportamento das empresas para que a responsabilidade social se enquadre na ISO 26.000?

AB: Quando discutimos responsabilidade social vê-se muitas vezes uma tendência grande das coisas serem traduzidas apenas em rentabilidade, em custo/benefício. Este é um ponto importante, sem dúvida, mas quando se trata de sustentabilidade a questão principal devem ser os valores éticos. Outro ponto é a promoção da cidadania global e da democracia. Hoje existe um movimento geral dizendo que tudo que vem do governo é ruim, e o que vem do mercado é bom, e isso nem sempre é verdade. Assim, é sem dúvida importante conversar com os stakeholders, mas não se pode deixar os programas políticos e a ação legislativa de lado. Também é importante valorizar a autonomia da sociedade civil, porque é muito natural que os projetos de organizações apareçam onde tem dinheiro, e não necessariamente onde está a prioridade da comunidade ou associação. É preciso ter autonomia para propor e gerir projetos, mesmo com o investimento social de uma empresa. Essas precisam desenvolver a capacidade de perceber e respeitar as necessidades da comunidade, da sociedade e da causa, qualquer que seja.

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