Um novo olhar para a sustentabilidade

Por: Revista Filantropia
01 Março 2011 - 00h00
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Artigo Sustentabilidade

Segundo Gilles Lipovetsky, importante filósofo contemporâneo, as preocupações do por vir planetário e os riscos ambientais assumiram posição primordial no debate coletivo. Nos últimos anos, quando despertamos para as revelações alarmantes a respeito do aquecimento global, o termo sustentabilidade ganhou a importância merecida na mídia, governos e empresas. O assunto virou uma febre.
As empresas são sustentáveis, o negócio é sustentável, tudo é sustentável. Mas o que é ser sustentável?
Que conceitos norteiam as gestões estratégicas das organizações?
Ser sustentável, hoje, provavelmente significa viabilizar o negócio desde que não impacte em mais custos, tecnologias mais caras. O que todos precisam entender é que há urgência em equilibrar a balança do tripé da sustentabilidade (Triple Bottom Line); a economia não deve pesar mais que o social e o ambiental.
Caso isso não ocorra, a natureza cobrará o seu preço. No caso do Japão, o governo gastará US$ 200 bilhões na reconstrução do país após o desastre.
Em 1987, foi publicado o relatório Nosso Futuro Comum (Our Common Future), elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que fazia duras críticas ao modelo de desenvolvimento adotado pelos países industrializados.
Foi reproduzido pelas nações em desenvolvimento, ressaltando os riscos do uso excessivo dos recursos naturais sem considerar a capacidade de suporte dos ecossistemas. O relatório apontava para a incompatibilidade entre o desenvolvimento e os padrões de produção e consumo vigentes. Cunhou-se a célebre frase: “Desenvolvimento sustentável é satisfazer as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Ou seja, deveríamos garantir para os nosso filhos, pelo menos, a mesma qualidade de vida que temos hoje, e que já não é tão boa assim. As gerações futuras, agora com 24 anos (1987 a 2011), perguntam quais medidas foram cumpridas e se é esse o futuro que construímos para eles. Devemos mesmo adotar esse conceito? A resposta é não! Os resultados mostram que falhamos, e que sustentabilidade é garantir hoje a qualidade do meio ambiente e da vida, gastar o que for preciso para as gerações presentes.
Não há um limite mínimo para o bem-estar da sociedade, assim como não há um limite máximo para a utilização dos recursos naturais. Como citou Jeffrey Sachs, professor de Economia e diretor do Instituto Terra da Universidade Columbia, “o mundo está rompendo os limites no uso de recursos. Se a economia mundial cresce a um patamar de 5% ao ano, significa, nesse modelo de desenvolvimento, que continuaremos produzindo grandes impactos ao meio ambiente. Nosso planeta não suportará fisicamente esse crescimento econômico exponencial se deixarmos a ganância levar vantagem. O crescimento da economia mundial já está esmagando a natureza”.
Se continuarmos com o modelo de desenvolvimento como o que temos atualmente, em 2050, quando se estima que haverá 9 bilhões de habitantes no
planeta, teremos uma dívida ecológica de 24 meses, tempo necessário para esta se recompor; mesmo assim, não se tem a certeza se o planeta aguentará uma pressão desse tamanho.
Há um grande equívoco, o qual é importante esclarecer, quando se fala em desenvolvimento. É comum falar em desenvolvimento sob o prisma do crescimento da economia – o Brasil está entre os dez países mais ricos do mundo, mas o relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mostra o Brasil na 73ª posição entre 169 países. De acordo com o relatório, aproximadamente 8,5% da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza, ou seja, 17 milhões de brasileiros vivem com menos de R$ 60 por mês. Além da má distribuição de renda, doença crônica no desenvolvimento do Brasil, a saúde e a educação é o que mais pesa na pobreza do país.
Como diria o professor Sachs, “se a ganância vencer, a máquina do crescimento econômico depredará os recursos, deixará os pobres de lado e nos conduzirá a uma profunda crise social, política e econômica”. Precisamos propor uma mudança no paradigma da sustentabilidade.
O desenvolvimento sustentado necessita incluir o homem nesse processo, em uma gestão que inclua pessoas, tecnologias sem o pressuposto econômico, fontes renováveis e práticas sustentáveis. Como citou Rachel Carson, em seu livro Primavera Silenciosa, “o homem é parte da natureza, e sua guerra contra a natureza é inevitavelmente uma guerra contra si mesmo... temos pela frente um desafio como nunca a humanidade teve, de provar nossa maturidade e nosso domínio, não da natureza, mas de nós mesmos”. A mensagem está dada.

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